Richard Baxter e o ministério pastoral hoje

Por Fernando Corrêa Pinto 



O objetivo deste texto é buscar em Richard Baxter ensinamentos que possam contribuir para a superação dos desafios pastorais atuais. 
Analisando alguns ensinamentos do autor, aquilo que mais podemos aprender com Richard Baxter em relação ao ministério pastoral hoje está ligado ao o zelo e dedicação que ele teve em relação ao chamado. Baxter lembra que o ministério deve ser realizado para Deus e para o seu povo. O objetivo errado pode fazer com que o serviço pastoral seja arruinado e, neste caso, o serviço passa a beneficiar a nós, e não a Deus e às pessoas. Para ele, o interesse próprio, que em muitos casos visa lucro, torna-se uma escolha infeliz. A autonegação, ou seja, priorizar os outros em detrimento de nós, é para todo cristão e se trata de um princípio básico e necessário para realização do chamado pastoral. Para ele, é importante que no ministério, priorizemos sempre o outro na medida de nossas forças. Baxter defende que o exercício do chamado pastoral motivado por interesse próprio pode ser um atentado para a própria consciência do líder e ainda consiste em uma escravidão para sua vida.


Um discurso sempre presente nas linhas do Pastor Aprovado está relacionado à vida cristã prática. Portanto, Baxter declara que devemos instigar os nossos ouvintes a serem pessoas como nós somos: “Portanto, irmãos, não percamos tempo: estudemos oremos, palestremos e pratiquemos.”
            Para Baxter, todos aqueles que foram chamados para desenvolver o ministério pastoral estão em todo tempo sendo observados por outras pessoas. Também sofrem mais tentações por terem responsabilidade maior diante de Deus. Ele também entende que as faltas dos pastores se sobressaem mais do que qualquer outro indivíduo e revelam mais hipocrisia, pois têm conhecimento maior do que os demais.
            Observo que uma possível resposta à crise em meio ao ministério do pastor atualmente está diretamente relacionada à visão individual do chamado pastoral e à consciência de cada um sobre este chamado.
Para Baxter, porém, a dependência da graça de Deus era o ponto fundamental para a prática pastoral:
Finalmente, reflitam sobre a necessidade de ver que todo o sucesso dos seus labores depende da graça e da bênção do Senhor. Deus promete aos Seus servos fiéis que estará com eles, e que porá o seu Espírito sobre eles e a Sua palavra em suas bocas.
            Em resumo, Baxter aponta elementos importantes para o exercício do ministério pastoral: dedicação a Deus e às pessoas, testemunho pessoal, motivação e dependência da Graça de Deus. Abaixo ainda veremos outros pontos a serem considerados.

2.2 A vocação e dedicação em Baxter

Baxter relaciona a vocação pastoral com alguns atributos que o líder cristão precisa possuir para a realização deste chamado.
Em primeiro lugar, ele afirma que o pastor precisa ter a motivação de seu chamado em Deus e para salvação do seu povo. Ele afirma que jamais o pastor pode ter o ministério motivado pelo lucro particular.
Para Baxter, a obra do ministério pastoral deve ser realizada com muita diligência, pois ela é de grande importância para as pessoas. O dever de cada líder cristão é o de edificar o reino de Deus e ajudar outros a alcançarem a glória eterna. Tais trabalhos exigem atenção especial.
Baxter recorda que o pastor precisa ter prazer em estudar com profundidade e diligência e se empenhar especialmente em colocar os ensinamentos em prática.Para Baxter, esta é uma obrigação do pastor. Tal obrigação de forma nenhuma traz prejuízo para quem a desenvolve. Pelo contrário, estes pastores poderão esperar as promessas de colher as suas sementes no ministério.
  Quando o assunto é o ensino das Escrituras Sagradas, é importante destacar a dedicação de Baxter. Ele defendia que o pastor deveria ensinar individualmente cada membro de sua igreja. Ele também destaca a importância de se ensinar os pontos básicos do cristianismo e outros que ele considerava de maior importância para o crescimento do rebanho. Para ele, o ensino deveria ser o mais simples possível. É certo que alguns assuntos das Escrituras são mais difíceis de entender que outros e é por isso que Baxter insiste em lembrar que o pastor deve ter a capacidade de simplificar o ensino para que todos possam entendê-lo.
Outro elemento importante na vida daquele que foi chamado para o ministério pastoral é a vida de oração contínua. Para Baxter, esta prática é a força motora que alimenta a obra do ministério do pastor. É preciso buscar na graça de Deus a força necessária tanto para os líderes quanto para o convencimento e cuidado com o seu povo.




As características e qualidades mencionadas como a dedicação a Deus e às pessoas, testemunho pessoal, motivação, dependência da graça de Deus, dedicação ao estudo bem como o ensino simples e a oração são de grande importância para o pastor. Entretanto, é necessário que sejamos unidos na realização da obra pastoral. É preciso, em primeiro lugar, ensinar sobre a unidade na Igreja, perseverar com esse propósito e praticá-la. Cada líder cristão tem muitas coisas em comum e é preciso fortalecer estas áreas em união, ao invés de procurar aquilo que divide. Tal motivação trará saúde para o corpo de Cristo no qual somos responsáveis. Para Baxter, os líderes precisam tomar atitudes que previnam as cisões para que no futuro não haja necessidade  de ter que lidar com as divisões.
O tema da unidade precisa estar na pauta de pregação dos pastores; da mesma forma, a busca pela paz e reconciliação. Para Baxter, não é possível que um pastor permita que haja no seu meio um sentimento de hostilidade por pretextos de corrigir erros e defender a “verdade”.De forma nenhuma, ele sugere que a essência das Escrituras e sua centralidade sejam deturpadas e rejeita que acrescentem coisas a ela por pretexto. Ele entende que é preciso pesquisar tanto nas Escrituras como na história e naqueles que são chamados Pais da Igreja para que haja maior fundamentação de nosso ensino. Entretanto, acima de tudo, está o amor de Deus em nós. Para ele, é preciso se esforçar para compreender nossos irmãos antes de declará-los como hereges.
Entendo que a preocupação de Baxter pode nos auxiliar hoje. A dedicação de cada pastor e ministérios precisa passar pelo princípio da cooperação, paz e unidade. No tempo de Baxter, já havia inúmeras denominações e isso era algo que o incomodava profundamente. Hoje, esse problema aumentou de forma espantosa. Fico imaginando o impacto que um indivíduo do século 17 teria ao ver o que se passa na igreja Cristã Contemporânea. Certamente, ficaria espantado. Portanto, Baxter aponta alguns caminhos para trabalhar em prol da unidade cristã.

Caminhando para o fim desta pesquisa, percebo a sua relevância para o ministério pastoral da atualidade e na relação do pastor com suas comunidades. Nesta relação, percebo que ele anima os líderes modernos a atentarem para os seus rebanhos. Baxter lembra que cada rebanho precisa de um pastor para conduzi-lo. O objeto principal do ministério do pastor é o rebanho de Deus. A preocupação primordial do líder cristão deve ser as pessoas. Portanto, o ministro deve conhecer muito bem suas ovelhas.
O líder deve ser sensível às prioridades do povo de Deus e, de forma alguma, privilegiar algum grupo específico. Para Baxter, tendemos a nos aproximar de pessoas que são agradáveis ou que possam nos oferecer alguma alegria. Para ele, esse trabalho deve ser com prudência e imparcialidade.
            O pastor deve estar preparados para as críticas e não usar de sua autoridade para evitar as possíveis reprovações. Estes princípios não desmerecem, de forma alguma, o ministério pastoral. Pelo contrário, proporciona ao líder maior confiança da parte de suas ovelhas.
            Vejo também a importância que Baxter dá para a visitação, principalmente aos enfermos. Em nosso tempo, percebo que a questão da visitação tem diminuído de forma considerável. Entendo que cultivar essa prática dará mais confiança para as ovelhas, fará com que o pastor conheça melhor suas necessidades e dará à ovelha mais confiança em relação ao seu líder.
             Baxter, no tempo já de sua velhice, acrescenta um apêndice na sua obra “O Pastor Aprovado” que saiu nas últimas edições. Neste acréscimo ele fala sobre as críticas que o livro recebeu desde o início e se mostra animado quando diz: “Bendigo a Deus por ter vivido o bastante para poder ouvir que muitos fiéis servos de Cristo seguem rigorosamente esta obra de Ilustração Pessoal, não somente neste condado, mas também noutras partes do país.” Com isso, ele mostra que os pastores de sua época examinaram a sua obra e alguns seguiram o seu manual de prática pastoral.  

Neste momento de conclusão, gostaria de fazer algumas considerações sobre o ministério pastoral contemporâneo e a contribuição de Richard Baxter e seu serviço pastoral. Durante todo o percurso desta estudo, pude observar que os desafios pastorais lançados por Baxter em suas obras são exemplos para o desenvolvimento do ministério pastoral na atualidade. Tanto as suas orientações com respeito ao cuidado pessoal de cada pastor como sua dedicação com as ovelhas, nos fornecem ferramentas fundamentais para a aplicação ao pastorado hoje em alguns aspectos.
Suas observações em relação à vida pessoal de cada líder cristão consistiam em verificar sua saúde diante de Deus, o caráter individual, a pureza de motivações, abnegação e a prática daquilo que se ensina, para que cada líder pudesse ter um testemunho pessoal aprovado pela comunidade. Ele dava muita ênfase à humildade do pastor, ao zelo com a obra no ministério, à vida de oração sadia e à unidade com outros líderes cristãos, bem como sua necessidade de arrependimento.
Com relação ao cuidado com o rebanho, ele lembra que cada ovelha precisa de um pastor e, por isso, o pastor tem de ter possibilidade de cuidar de cada uma individualmente. Faz-nos lembrar que precisamos ter uma atenção maior em cuidar dos grupos com necessidades urgentes e especiais. Algo que ele enfatizava na relação de pastor e ovelha era o ensino pessoal. Baxter ensinava individualmente cada ovelha. Desta forma, ele poderia ser específico na necessidade de cada uma delas. Destacava também o interesse pelos pobres e ensinava que toda a pregação precisava ser acessível em sua linguagem, para que o povo mais simples pudesse entender a mensagem bíblica.
Esta pesquisa mostra algumas crises no meio da liderança cristã da atualidade. O contexto econômico e social de nosso tempo tem valorizado demasiadamente os bens e o dinheiro, deixando de lado o valor de cada pessoa. Este problema tem feito com que muitos pastores sejam influenciados e busquem o ministério com motivações erradas. Daí vemos uma crise de vocação e alguns problemas, já apontados na pesquisa, que são frutos desta motivação.
Após fazer uma análise dos ensinamentos de Baxter e do ministério pastoral do nosso século, percebo que ele pode contribuir para líderes cristãos da atualidade que queiram se dedicar ao pastorado. O modelo de Baxter pode ser resumido com a palavra dedicação. Ele desafia cada pastor a viver de forma sincera em relação ao seu chamado, buscando os bons resultados deste ministério. Que Deus nos ajude.




BAXTER, Richard. Manual pastoral de discipulado. Trad: Elizabeth Gomes. São Paulo: Cultura Cristã. 2008, 222 p.
 [1] BAXTER, 1996, p. 35.
[2] Idem
[3] Idem
[4] BAXTER, Richard. O descanso eterno dos santos. Trad: Lena Aranha. Santo Amaro: Shedd Publicações, 2009. p. 81.
[5] BAXTER, 1996, p. 56.
[6] Ibid., p. 61.
[7] Ibid., p. 62.
[8] Ibid., p. 68.
[9] Ibid., p. 35.
[10] Idem
[11] Ibid., p. 36.
[12] Idem
[13] Idem
[14] Idem
[15] BAXTER, 1996, p. 36.
[16] Ibid., p. 38.
[17] Ibid., p. 48.
[18] BAXTER, 1996, p. 49.
[19] Ibid., p. 104.
[20] Ibid., p. 110.
[21] BAXTER, 1996, p. 181.

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