Lidando com o sofrimento




 Por Fernando Corrêa Pinto

            Ao longo da história, diversos pensadores tentaram entender o problema do sofrimento. Muitos deles fizeram ligação do sofrimento com o mal, com a violência ou até mesmo com a natureza humana.  Um pensamento comum na maioria destas linhas, é de que o sofrimento faz parte da existência humana. Procurar entender como fazer para que esse sofrimento seja diminuído também é campo comum no meio dos pensadores.


            Em particular, na visão psicanalítica, o sofrimento vem por conta da frustração do desejo. Essa dor sempre estará ligada ao conflito entre desejos. Na maioria dos pensamentos teológicos, o sofrimento estará ligado a condição natural do ser humano. Essa condição limitou a pessoa a uma existência com possibilidades de sofrimento por conta da perda da essência natural dada por Deus. Em algumas linhas filosóficas vemos que o conceito de sofrimento transita pelas duas ideias, tanto a teológica como a da psicanálise, e que o mais importante é entender que o sofrimento é natural à existência humana. Podemos aqui citar um importante filósofo que teve bastante influência na produção de Freud: Schopenhauer. Em sua filosofia, o sofrimento também está ligado com o conflito entre desejos. Os antigos Estóicos entendiam que o sofrimento viria por conta do apego material. Sêneca, filósofo romano, afirmava que somos escravos daquilo que tememos perder, portanto antes de perder algo é importante saber que essa possibilidade é real.
            Diante do sofrimento, então, é necessário aprender a lidar com a natureza humana e com as possíveis perdas. Ainda outra possível compreensão que deva permear nossa batalha contra o sofrimento esteja em entender nossa condição como pessoa. As personalidades são diversas e não saber como essa diversidade pode trazer sofrimento, pode nos atrapalhar. Por exemplo: é possível uma pessoa relativamente tímida desejar estar permanentemente em ambientes de mais extroversão, ou alguém que tem muitas habilidades com humanidades desejar atuar nas ciências exatas. Certamente isso causará muitos conflitos por não ter condições naturais de se adequar com aquela condição. Além de nossos conflitos pessoais internos e desejos, ainda nos deparamos com aquilo que o outro deseja de nós. Por isso, o autoconhecimento é fundamental. É bem possível que o mundo espere de nós algo que não é inerente a nós.
            Tentar eliminar o sofrimento é uma ilusão, mas aprender a lidar com ele, o fará ter menos poder de destruição. Se conhecer é fundamental, entender o ambiente em que se está inserido também. Estar inserido no coletivo exige submissão, bem como, da mesma forma que alguém está acostumado com o coletivo lidar com o individualismo também pode gerar choque. Não há possibilidade de fugir eternamente destes conflitos sociais. Por isso é fundamental que haja aperfeiçoamento da habilidade humana de lidar com os choques. Preparar-nos para os choques, para o mundo que lidamos, adquirir novos valores e escolher bem os ambientes que deveremos viver é fundamental. A eliminação de desejos passageiros e irreais podem também nos ajudar a lidar com a dor. Agostinho de Hipona afirma que: “A felicidade consiste em continuar desejando o que possui”. Alguns poderiam perguntar: mas então não podemos buscar sonhos e conquistas futuras? A resposta está em que tipo de sofrimento isso irá gerar e se estamos dispostos a padecer, ou a fazer padecer para que tal conquista venha.
            No evangelho de Lucas, no capítulo 9 verso 23, lemos uma afirmação de Jesus“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.” Essa afirmação é um desafio para uma caminhada que talvez muitos não desejassem aceitar. Nesse momento, quem recebeu o convite precisou avaliar se estava disposto a seguir os passos do seu mestre. Para saber se existe uma disposição real para o sofrimento, é necessário avaliar o caminho que será trilhado. Jesus é bem claro e não obriga o seu público a segui-lo. Ele deixa claro que é uma disposição voluntária.
            Outra pergunta que podemos fazer diante do tema é: será que é possível evitar o sofrimento? A resposta exata para essa pergunta é 'não'. Todavia, podemos avaliar que existem pessoas que lidam melhor com o sofrimento que outras. Além disso, existem pessoas que nascem com características biológicas desfavoráveis à felicidade, como pessoas bipolares ou depressivas. Essas pessoas adquirem essas características ou nascem com elas. Tais condições deixam o indivíduo permanentemente em um estado de infelicidade. Do outro lado, temos pessoas que podem ser hipomaníacas permanentes ou ter uma auto-estima elevada contínua e até uma saúde além do normal. Essas pessoas serão sempre mais felizes. Contudo, a maioria dos humanos permanecem em um estado normal de condição de humor. Quando as coisas vão bem, estão felizes, quando vão mal, ficam tristes. 
            Ver o sofrimento com bons olhos nos ajudará a lidar com ele. Uma vida sem sofrimento talvez fosse monótona. Ver o sofrimento como algo que nos move e desafia a vencer, nos ajudará a ter motivação diante dele. A alternância entre alegria e tristeza é uma realidade da vida. Viver nos ajuda a lidar com o sofrimento, deixar de viver por causa do medo já é uma derrota que causaria mais sofrimento. Por outro lado, pensar que não existe sofrimento e buscar uma felicidade a qualquer preço nos faria mais infelizes diante da realidade da vida.



                 Paulo em sua carta aos Filipenses cap 4, 11-13 nos diz:
“Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.

            Esta simples afirmação de Paulo nos dá o entendimento de que a maturidade da vida nos traz a possibilidade de vivermos felizes em circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis. No final do verso 13, ele faz uma afirmação com a qual pretendo concluir meu texto. Ele fala que tudo ele pode por causa Daquele que o fortalece. Diante desta afirmação, concluo que por mais que filósofos, pensadores e psicanalistas busquem compreender o problema do sofrimento, somente Deus pode dar esperança de uma vida contente mesmo diante do sofrimento. Além dessa esperança de alegria nessa terra, a fé em Deus pode nos dar a esperança de sermos completamente livres do sofrimento da existência na promessa de uma nova vida após a morte. Essa é a esperança de quem tem a fé em Cristo.  


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